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Antraz não vai nada, uma crônica do pós 11 de setembro


Diogo Tavares*


Como diria dona Odete, uma senhora tão virtuosa quanto as circunstâncias permitiram, se for impossível evitar antraz, o jeito é relaxar. Obviamente, nem todos são tão desprendidos no fundamentalismo. Nesse grupo mais travado se inclui um funcionário da Câmara de Vereadores, que recebeu no recesso do lar uma carta, com carimbo dos Estados Unidos, sem nome do remetente.


Não há outras testemunhas da cena, mas podemos imaginar o homem mais pálido do que uma vela diante da correspondência suspeita. Uma carta desconhecida do estrangeiro, chegando assim na casa dele, só podia ser uma daquelas com antraz. Pegou aquele infecto objeto com um guardanapo e tratou de colocá-lo num saco de lixo. Com tudo embrulhadinho, resolveu levar o objeto para a Câmara, onde as autoridades competentes poderiam ser acionadas.


No mesmo dia, um rapaz chegou para o trabalho no Legislativo municipal, como faz diariamente. Ao ver um computador desocupado, tratou de ligar e começar a escrever. “Você vai usar este computador? É onde ele trabalha”, alguém disse. Não entendeu e perguntou o que estava acontecendo. Em pouco tempo, foi informado da história. Não levou a sério e pediu para ver a tal carta. Afinal, se alguém fosse mandar uma carta com antraz, não seria para a casa de um simples funcionário. Diante dos olhares perplexos de outros quatro servidores e de um visitante, tratou de rasgar o saco. Num piscar de olhos, todos saíram correndo da sala como um rebanho de vacas loucas. O rapaz retirou o envelope do saco, abriu a correspondência e conferiu uma publicidade em inglês. Depois, sem dar importância ao fato, deixou o papel de lado e voltou ao computador.


Mal começou a escrever, teve a atenção desviada por um vulto de branco que entrava na sala. Era um homem de macacão, rosto coberto por máscara e luvas, que foi logo se identificando como dos Bombeiros. “Você é o rapaz que recebeu a carta”?


“Não. Eu apenas abri”, respondeu.


“Você abriu?! E onde está o pó?”


Enquanto ele tentava explicar que não tinha pó nenhum na carta, o homem pegava o objeto, que voltava a ser ensacado. Em seguida, começou fazer perguntas, enquanto preenchia um formulário. Nome, profissão, sintomas.


“Sintoma? Eu não tenho nada. A carta não tinha nada. Pode ver”.


O homem, que mais parecia um ET, explicou que eram seis chamadas por dia em Salvador, mas que era um procedimento de praxe. O formulário e a carta iriam para análise na Fiocruz.


“Análise do que? Não tem pó nenhum”.


Concluído o questionário, o rapaz pensou em continuar a trabalhar, quando entraram dois homens, que se identificaram como da Inteligência da Polícia. “O senhor é o rapaz da carta?”


Desta vez, nem tentou argumentar. Confirmou que era ele sim, mas que a carta não tinha nada. Os homens repetiram as perguntas e pediram que, por enquanto, ele mantivesse sigilo sobre a ocorrência. Antes de sair, aconselharam: “Quando a Polícia Federal chegar, o senhor explica isso pra eles”.


Era só o que faltava. Teria que repetir tudo de novo, agora para a PF. Reclamou para o funcionário que recebera a carta, mas o homem defendeu sua precaução. Afinal, tinha mulher e filhos.


Neste ponto da situação, uma secretária chegou dizendo que a televisão estava a caminho e que tinha um repórter de jornal na portaria procurando o rapaz que tinha recebido uma carta com antraz.


Parece ficção, mas não é. Como o telefonema que o prefeito de Frei Paulo, cidade do interior de Sergipe, deu para um jornal de Salvador após os atentados nos Estados Unidos. “Estou ligando para avisar que decretei luto de três dias no município e o lábaro já está a meio mastro”. Diante da perplexidade do interlocutor, o alcaide informou que, apesar do vigia estar em alerta, o campo de pouso do município continuava aberto.


*Publicado originalmente no Correio da Bahia em 04/11/01, ilustração original de Flávio Luiz para a crônia "O ano em que aprendemos muitas coisas", publicada em 30/12/01.

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