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Antes uma boa morte

Ou como na Bahia um simples copo pode conter muito mais mistério do que supõe a vã filosofia



Diogo Tavares*


Aos menos enfronhados era uma estranheza só. Lá vinha alguém chamar o vivente para uma apresentação da Lira Ceciliana em São Félix e a resposta, que a muitos já não surpreendia, era: “Antes uma boa morte”. Até mesmo quando era pra participar da própria procissão da Irmandade da Boa Morte, em Cachoeira. No máximo ele podia confirmar presença. “Eu vou, mas antes uma boa morte”.


Aquilo intrigava os forasteiros. Afinal, até mesmo antes de fazer compras, o sujeito saía com a citação. “Antes da feira uma boa morte”. Os mais íntimos não ligavam. A mulher, que já conhecia bem a história, ia logo dizendo. “Meu bem, depois da boa morte vê se não esquece de pagar a conta de luz”.


Certa vez aquilo causou tanta estranheza a um turista que o homem decidiu averiguar. Afinal, como é que alguém poderia preferir antes de qualquer coisa uma boa morte? “Ora, porque é melhor”, respondeu o homem. O forasteiro queria saber por que era melhor uma boa morte. “Por que é boa, não é?” E insistiu: “Mas como é que você pode ir visitar um amigo depois de uma boa morte?“ A resposta, uma pergunta: “Mas não é uma boa morte?”

Como último recurso, o sujeito de fora decidiu pagar uma bebida para o homem e ver se ele soltava as idéias e a língua. Rumaram para o bar e restaurante Gruta Azul, próximo à ponte de ferro que liga Cachoeira a São Félix. Lá, o turista perguntou se o homem queria beber uma cerveja. “Vai bem, mas antes uma boa morte”. Depois, virando para o rapaz que estava do outro lado do balcão, pediu: “Vamos tomar uma gelada, mas antes coloca aí uma boa morte”. Depois, segurando o copinho entre os dedos, diante do olhar espantado do forasteiro, ofereceu: “Experimenta. É a melhor bebida da cidade”.


O personagem acima é uma criação formada de vários tipos de Cachoeira. A bebida, esta sim, existe de fato. Foi inventada há mais ou menos meio século por Alexandre, proprietário do Gruta Azul, que nunca fez questão de desfazer a mística sobre a origem do precioso líquido. Aliás, a própria fórmula teria ido para o túmulo com o inventor, há alguns anos, não tivesse ele prudentemente passado o segredo para a mulher.


Uma das versões que correram a cidade é de que Alexandre teria sonhado com a bebida durante várias noites, após a festa do Boa Morte, até que a fórmula se tornou clara. Então, tratou de juntar os ingredientes e deu no que deu. Outros dizem que ele simplesmente foi juntando as coisas até gostar do resultado, pois já andava interessado em criar um drinque diferente.


O fato é que Alexandre sempre resistiu aos curiosos. Todos queriam saber o que levava a mistura. Alguns reconheciam algo como vinho, talvez canela. Outros juravam que era gosto de goiaba. Podia ter também uma pontinha de cravo. E cachaça, isso os que ficavam mais altos garantiam ter. Apesar de tudo, o segredo da bebida boa morte ainda é hoje um dos mais bem guardados da cidade de Cachoeira. Se a morte de Alexandre foi boa ou ruim, só ele poderia dizer. Mas que ninguém se surpreenda se, ao visitar a cidade, ouvir a frase: “Antes uma boa morte”. A possibilidade do cidadão continuar vivo é bem grande.


*Crônica do livro “Notícias de uma terra dessemelhante”, lançado em Salvador em 2017.

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