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Alguém sobreviverá à pandemia?



Diogo Tavares*


Ainda sob o impacto da partida do cientista maior da Bahia, o médico Elsimar Coutinho, leio um artigo publicado pela Biblioteca Nacional (BN), sediada no Rio de Janeiro, sobre as semelhanças entre a Covid-19 e a gripe espanhola de 1918. Tão disseminada quanto a pandemia atual, a outra resultou na morte de 1% da população ao redor do mundo, incluindo pessoas proeminentes em diversas áreas e até o presidente brasileiro Rodrigues Alves. O mais surpreendente, no entanto, foi saber do impacto que a doença de 1918 causou no futuro jornalista, escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues, a ponto do assunto aparecer em dois capítulos da sua autobiografia.


Nelson Rodrigues tinha apenas 6 anos em 1918, mas relembraria os tempos da gripe espanhola como o período em que a morte fez parte da vida difusa das pessoas, transformou a realidade drasticamente, mas não resultou numa mudança significativa para o ser humano nos anos posteriores. Morando num bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, o menino Nelson Rodrigues reproduziu em seu texto de 1967 a pergunta que o marcou, feita por um vizinho no final da pandemia: “Quem não morreu na espanhola?”


“Morrer na cama era um privilégio abusivo e aristocrático. O sujeito morria nos lugares mais impróprios, insuspeitados: na varanda, na janela, na calçada, na esquina, no botequim. Normalmente, o agonizante põe-se a imaginar a reação dos parentes, amigos e desafetos. Na espanhola não havia reação nenhuma. Muitos caíam, rente ao meio-fio, com a cara enfiada no ralo. E ficavam, lá, estendidos, não como mortos, mas como bêbados. Ninguém os chorava, ninguém”, escreveu Nelson Rodrigues.


O dramaturgo também destacava o caráter mais solitário da morte sem as últimas homenagens. "Ora, a gripe foi, justamente, a morte sem velório. Morria-se em massa. E foi de repente. De um dia para o outro, todo mundo começou a morrer. Os primeiros ainda foram chorados, velados e floridos. Mas quando a cidade sentiu que era mesmo a peste, ninguém chorou mais nem velou, nem floriu. O velório seria um luxo insuportável para os outros defuntos. Era em 1918. A morte estava no ar e repito: difusa, volatizada, atmosférica; todos a respiravam".


Mas, como passará agora, 102 anos depois, a pandemia de gripe espanhola também chegou ao fim, deixando um sentimento estranho. "De repente, passou a gripe. Ninguém pensava nos mortos atirados nas valas, uns por cima dos outros. Lá estavam, humilhados e ofendidos, numa promiscuidade abjeta. A peste deixara nos sobreviventes, não o medo, não o espanto, não o ressentimento, mas o puro tédio da morte”.


Como o vizinho do menino Nelson Rodrigues, antevejo pessoas perguntando umas às outras “quem não morreu na Covid-19?”. Será uma avaliação complexa, pois quem não morrer de todo terá finado em parte, nos amigos e parentes que não reencontrará em vida, no emprego que se foi, no empreendimento falido, na liberdade restringida, nos olhares desconfiados, nos abraços reprimidos, nos beijos que não voltam mais, no ensejo frustrado. Apenas quem não morrer de todo terá a oportunidade concreta de ressuscitar, relembrar e reconstruir. Talvez com a vivência do tédio da morte ou a efêmera gratidão pela vida.


*Jornalista, escritor e consultor de comunicação.

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