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A perereca do patriarca



Diogo Tavares*


Raul, o patriarca da grande família baiana, ia fazer 80 anos. Motivo de grande festa para a fiel companheira, dona Nita, os oito filhos, netos, bisnetos, sobrinhos, noras, genros, cunhados, primos. Enfim, um batalhão de gente que só para escolher o lugar da festa foi preciso marcar dezenas de reuniões na busca de um consenso. Raul ganharia missa, bolo com sequilhos e os deliciosos pastéis de Santa Clara, terno novo azul marinho e um dentadura.


Sim, este seria presente das filhas Ana e Gisa, que não aguentavam mais a boca mole do velho e procuraram o melhor protético da cidade, o Dr. Regis. Um presentão, aliás, com preço equivalente, na época, a um fusca seminovo.


Mas a ocasião valia a despesa e as ovelhas, como eram chamadas as filhas de Raul, não aguentavam mais ver o pai desdentado, mal conseguindo balbuciar uma palavra e com dificuldade para comer. Além disso, não ficava bem um chefe de família distinta e numerosa daquele jeito “banguelo”.


Cheio de reticências, Raul concordou com o presente, pois não queria desagradar as filhas sempre tão zelosas, meninas que desprezaram, na juventude, bons partidos para cuidar os pais idosos. Sempre deram alegrias e não seria agora, nesse grande momento, que ele ia dizer não. Depois de inúmeras idas ao dentista, vários exames, raios X, molde pra lá e pra cá, e a tal da “perereca” ficou pronta.


A bichinha brilhava mais que o sapato de couro alemão devidamente lustrado para a ocasião, estava mais imponente que o terno azul marinho encomendado sobre medida em Spinelli, o mais conceituado alfaiate da Rua Chile, enfim, estava prontinha e sob medida para abrilhantar o sorriso de Raul naquela gloriosa noite.


Bem, Raul saiu do apartamento da aprazível Rua Marechal Floriano, no Canela, usando a dita cuja, mas logo logo estava sem a dentadura. Todas as fotos do festejo saíram com a famigerada boca murcha. Durante muitos anos as ovelhas folhearam o algum de fotografias da festa dos 80 anos de Raul sem aceitar porque “depois de tanto gasto e tanto sacrifício pai não usou a dentadura”.


O tempo ia passando, vinha aniversário de filhos, festas de final de ano e nada da dentadura na boca do patriarca. Vinha casamento de neto e nada. Batizado de bisneto e cadê a dentadura? Nada, nadinha mesmo.


As meninas já tinham desistido. Dona Nita já tinha se aborrecido demais falando da dedicação das filhas, do primor do presente, do cuidado e zelo. Nenhum argumento sensibilizava Raul, que preferia ficar de boca mole mesmo.


Até que numa tarde morna de outono Deus chamou Raul para sua companhia. Era a primeira grande perda de uma família tão unida e, novamente, filhos, netos, bisnetos, etc., se reuniram para a última despedida.


As zelosas ovelhas fizeram tudo como manda o figurino. O jazigo perpétuo no Jardim da Saudade recebeu uma faxina completa, muitas flores, missa de corpo presente, rezas e cânticos, enfim tudo do bom e do melhor. Para completar, Raul seria enterrado com o elegante terno azul marinho, praticamente novo, usado na festa dos seus 80 anos.


A filha Ana tirou a roupa do armário, escovou, deu uma fresca na varanda e levou para arrumar Raul todo bonitinho. Nessa tarefa, encontrou a dentadura. O que fazer? Naquela hora de tristeza, ela guardou a dentadura na bolsa e foi para o velório no Jardim da Saudade.


Foi chagada a hora do adeus final, aquela hora triste antes de fechar o caixão que toma todos de uma comoção geral. Como não dava para colocar a dentadura na boca do falecido, Ana não sabia o que fazer. De repente, como uma luz, teve a ideia de colocar a dentadura de Raul no lugar que ele tinha guardado durante todo o tempo: no bolso do terno. Disfarçadamente, alisou o rosto do velho pai, arrumou as flores e, com cuidado para não chamar a atenção dos presentes, colocou a dentadura no bolso do terno.


Os anos passaram e Nita também faleceu. Antes de levá-la para junto de Raul, seu companheiro por mais de 60 anos, as ovelhas foram acompanhar a equipe do cemitério para recolher os ossos de Raul e deixar espaço no jazido para o caixão de Nita. Abriu-se o caixão de Raul: ossos soltos, terno em frangalhos e lá, novinha em folha, sorrindo debochadamente, estava a dentadura que Raul se negara a usar em vida. Novamente ela foi colocada juntos aos restos mortais de Raul. Afinal, presente não se pega de volta. Com este desfecho, o sorriso de Raul seguiu para a eternidade.


*Texto publicado originalmente no Jornal Correio da Bahia, ilustração Rezende, colaboração de Nádya Argôlo, Ana e Gisa Andrade

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