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A peleja de São Francisco contra o mal da bicha

Ou, a bem da verdade, quando tudo que resta é rezar, o jeito é recorrer à oração com fervor redobrado



Diogo Tavares*


Salvador, 4 de abril de 1686


Disseram que tudo começou após um eclipse da lua seguido por outro do sol, em 1685, o que por si só já seria o suficiente para justificar qualquer desgraça. Os dois homens que jantavam naquela noite de abril de 1686, entretanto, nem se lembravam das notícias de uma peste mortal em Pernambuco. Comiamcom vontade naquela casa onde o prato principal era a própria dona com suas carnes flácidas.


Mastigavam e riam, limpando as mãos gordurosas no tecido sobre as ancas opulentas da mulher, quando um deles pareceu engasgar, entrevou, com olhos esbugalhados, e levou as mãos à barriga. Providenciou-se um copo d'água e uma aguardente do Recôncavo pra desatravessar a moqueca, mas o homem, que de mulato tinha ficado branco, derrubou o copo e cuspiu boca a fora muito mais do que a comida do brega. Então foi tomado de tremores e suores. Pouco depois o outro homem começou a sentir a mesma coisa e logo os dois estavam com as canelas esticadas, com a pele mais amarela do que sorriso de coveiro.


O estranho mal que matava amarelando foi relatado por toda a cidade nos dias seguintes. Mais rápido do que as notícias, a epidemia foi se alastrando. Primeiro nas malocas e casas pobres, depois nos sobrados e solares, a doença não poupava nem os mais nobres. Ao contrário, eram os escravos negros os menos atingidos pela desgraça. Logo, encheram-se sanatórios, conventos e igrejas com pacientes. Não havia médico que desse conta de tanta gente. Quando muito, podiam cuidar de si e dos seus. Os mais abastados tentavam escapar da praga fugindo para engenhos e cidades do Recôncavo, mas não adiantava, pois logo a danada ia atrás dos viventes também lá. Então o povo, na sua sabedoria milenar, apelidou a epidemia de febre amarela de "o mal da bicha".


Enquanto o pânico tomava conta da cidade e carroças carregavam cadáveres pelas ruas a qualquer hora, eram contabilizadas as vítimas célebres. A danada da bicha levou desta para a melhor, por exemplo, dom frei João Madre de Deus, segundo arcebispo do Brasil, que estrebuchou no dia de Santo Antonio. Destino igual teve o filho do governador geral dom Francisco de Souza, o Conde do Prado, e o governador geral que o substituiu meses depois, Matias da Cunha. Entre os jesuítas, as baixas eram enormes e todos os procedimentos básicos, como queimar lençóis e roupas dos mortos e isolar os doentes, não surtiam qualquer efeito.


As autoridades reunidas traçavam estratégias, mas a bicha sempre levava a melhor. A situação estava completamente fora de controle, quando surgiu o herói salvador. E a solução, como era de se esperar depois que todas as providências dos homens tinham sido inúteis e só dava a danada da moléstia na terra, veio do céu. Não veio com a lança afiada de São Jorge a combater o dragão do mal, não veio com patente militar como Santo Antonio, não era especialista em mazelas da carne humana, como São Lázaro, mas teve aclamação popular. Após procissões pedindo proteção contra o mal a quase todos os santos e santas, chegou a vez da procissão a São Francisco Xavier. Foi a maior de todas. A imagem do santo, retirada do Colégio dos Jesuítas, foi carregada nos braços da multidão por várias ruas da cidade no dia 10 de maio. Nesta mesma data, para deixar o santo oficialmente encarregado de combater a bicha, São Francisco Xavier foi eleito padroeiro da Cidade do Salvador pelo Senado da Câmara Legislativa Municipal.


Depois disso, o mal da bicha começou a recuar gradativamente, enquanto crescia aos turbilhões o prestígio de São Francisco Xavier, expresso em rezas e doações à igreja. No auge da fama, o santo teve a indicação como padroeiro da cidade reconhecida em Provisão Régia de 3 de março de 1687 e confirmada na Sagrada Congregação dos Ritos do Vaticano no dia 13 de março de 1688. De modo que o padroeiro de Salvador, ao contrário do que muita gente pensa, não é o Senhor do Bonfim, mas São Francisco Xavier, que não teve pouco trabalho por merecer tal honraria. Afinal, em 1855, 169 anos depois do mal da bicha, a cidade seria assolada por nova epidemia, desta vez de cólera morbus. Diante da impotência dos homens, mais uma missão para o santo.


*Diogo Tavares é autor dos livros "Breves histórias da dessemenhança" e "Notícias de uma terra dessemelhante", que inclui o texto acima

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