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A mudança do Salvador

Ou a prova da repetição tanto das mazelas quanto das propostas grandiosas na Cidade da Bahia



Diogo Tavares*


Salvador, 14 de julho de 1813


Chovia há 45 dias na cidade, o que, além de afetar o humor dos soteropolitanos, já estava pesando no bolso e no estômago da maioria menos afortunada. Para safar o seu lado, os verdureiros adotavam uma prática usual em períodos de chuva ou seca: casar verduras. Chuchu só podia ser vendido com jiló, quiabo com batata, abóbora com maxixe ou alface com vagem. Era uma forma encontrada pelos comerciantes para vender itens menos procurados ou mais resistentes junto com os que eram os primeiros a acabar nestes períodos. Evitava-se encalhes e perdas. É claro que, para fregueses especiais, o casamento podia ser arranjado, com a troca de noivos, do tipo chuchu com ervilha, e até com um triângulo, como coentro, hortelã e tomate.


Naquele mês, entretanto, depois de tantos dias de chuva, estava difícil até achar verdura solteirona. Quando surgia uma na praça, era logo comida. Também era uma trabalheira encontrar feijão, farinha, carne, peixe e outros alimentos essenciais. Os preços, como acontece nestes casos, disparavam na cidade, para felicidade de alguns comerciantes inescrupulosos.


Muita gente devia estar pensando no que fazer para o almoço, quando um forte barulho foi ouvido na cidade. Era o primeiro de uma série de desabamentos que naquele mês atingiriam quase toda a face da cidade voltada para o mar. Inicialmente, a terra cedeu na Cruz do Pascoal, cobrindo o Trapiche Barnabé. Os desmoronamentos se sucederam na Ladeira da Misericórdia, Conceição e Gamboa, provocando dezenas de mortes.


O medo da população era de que toda a Cidade Alta deslizasse para o mar. Muitas pessoas abandonaram suas casas, numa fuga em massa para a periferia da cidade e para cidades do Recôncavo, onde a chuva e os problemas não eram muito menores. Durante oito dias o comércio da Cidade Baixa ficou sem funcionar, inclusive a alfândega e o mercado, agravando ainda mais o abastecimento de gêneros essenciais.


Diante deste quadro de calamidade pública, o presidente da província, Conde dos Arcos, lançou um plano mirabolante: mudar a cidade de lugar, construindo uma nova Salvador em um trecho entre o antigo Noviciado (Calçada) e Itapagipe. Lá, o relevo plano deixaria os moradores livres da ameaças de novos desabamentos. Não era uma idéia melhor do que o casamento de verduras, mas no estado de espírito em que a população se encontrava acabou ganhando força.


Começou-se a traçar procedimentos básicos para a mudança de Salvador. Listou-se os prédios públicos, as alternativas para a construção de ruas e disposição de casas. O trabalho era intenso e consumia rapidamente os dias sem que nenhuma atitude prática fosse adotada.


Naturalmente, um dia parou de chover. Com o sol, o projeto esmoreceu. Bom, se não estava mais chovendo e não parecia que ia voltar a chover tão cedo, não precisava mais mudar a cidade de lugar. Afinal, ia ser uma trabalheira danada! Sem falar na vista, que é muito mais bonita lá da montanha. De forma que tudo prosseguiu como dantes e assim continua até hoje, com a chuva e os comerciantes inescrupulosos causando consideráveis estragos para os baianos de tempos em tempos.


*Do livro "Notícias de uma terra dessemelhante"

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