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A grande invenção

Ou como o pau elétrico e a fubica velha de guerra mudaram para sempre a cara da folia soteropolitana



Diogo Tavares*


O mulato e o galego chegaram no estabelecimento parecendo que tinham vinho direto do castelo do sobrado 63, após uma noitada iniciada no Tabaris, onde as novas dançarinas francesas eram a sensação do momento. O primeiro bonde daquela segunda-feira ainda nem tinha passado pela Avenida Sete de Setembro quando eles se plantaram na porta esperando a loja abrir.


Não importava aquela aparência de boêmios, afinal eram clientes, pensou o funcionário espanhol, enquanto se apressava em abrir as portas para atender a dupla. O patrão disse certa vez que gostava dele principalmente por causa da pontualidade. Chegava sempre cedo, enquanto os empregados baianos viviam atrasados. Então, já que tinha cliente na porta era melhor abrir logo, antes mesmo que o dono acabasse de conferir os estoques lá no fundo. Seria a primeira venda do dia e da semana, com certeza. Em suma, poderia ser essa a versão oficial, se houvesse uma. Ou a versão das más línguas, se não fosse também contada por boas línguas. É provável até que a boêmia não passasse de folclore, mas com certeza os dois chamaram a atenção.


"Eu queria um violão bem forte", pediu o mulato.


O funcionário da loja de instrumentos A Primavera pegou rapidamente um instrumento e entregou ao homem. "Este é um dos melhores que se pode encontrar na Bahia", disse.

O mulato pegou o instrumento e começou a olhar contra a luz que invadia o estabelecimento pela porta. O funcionário se preparava para explicar outras vantagens do violão, quando o galego pediu. “Eu queria um cavaquinho também bem forte”.


Quando voltava com o segundo pedido, o funcionário viu o mulato arrebentar o violão contra o chão, após o que reclamou: "Não é tão forte assim".


Gesticulando e falando numa mistura de português e espanhol, o funcionário se aproximou da dupla. Foi o suficiente para que o galego lhe tomasse o cavaquinho das mãos e o quebrasse da mesma maneira. “Este também não é muito forte”, disse em seguida.


Atônito, o funcionário não sabia se gritava pela polícia na rua ou se chamava o dono da loja. Pensava no prejuízo. Como poderia se defender, se eram dois contra um? Além disso pareciam loucos e contra maluco todo cuidado é pouco. Com certeza ia ser demitido por abrir a loja minutos mais cedo para aqueles vândalos.


Dias antes, quando o mulato soube que haveria um show no Cinema Guarani com um tal de Benedito Chaves e seu violão elétrico comentou com o amigo que devia ser uma espécie de realejo de cordas. "Precisamos ver este negócio de violão que toca sozinho", disse ao amigo, companheiro de serestas e carnavais. No show, entretanto, os dois notaram que era apenas um violão comum com um microfone instalado. E haja microfonia durante o show! Não deu nem notar se o visitante era um bom violonista.


"Se é para captar o som, por que não fazer direto da corda, sem a caixa do instrumento?", perguntou o galego na saída da apresentação. "Por que não?", disse o mulato.

Durante o final de semana os dois ficaram discutindo a idéia e rabiscando alguns esquemas em pedaços de papel. Concluíram uma lista de materiais e estavam tão ansiosas que não viam a hora das lojas abrirem na segunda-feira.


Então estão os dois a quebrar os pedaços de madeira que restavam colados aos braços dos instrumentos enquanto o funcionário nervoso ameaçava chamar a polícia. "Quanto custam estes pedaços de pau?", perguntou o mulato, mostrando os braços dos instrumentos e sacando uma nota da carteira. Ainda mais perplexo, o funcionário cobrou o preço dos instrumentos e observou boquiaberto os dois homens que deixavam a loja fazendo uma última advertência: "Você devia se arrepender de vender instrumentos tão frágeis".


"Estes baianos são loucos", pensou o espanhol, que alguns anos depois veria a dupla em cima de uma fubica e, além de confirmar a tese da loucura, conheceria seus nomes: Dodô e Osmar. Veria também os estranhos instrumentos, que não passavam de pedaços de pau ligados a fios e que ficariam conhecidos como paus elétricos.


A guitarra elétrica, entretanto, foi patenteada nos Estados Unidos pelo músico Leo Fender. E o que aqueles dois tinham com isto? A eles bastavam os instrumentos feitos em casa e as reuniões para tocar, junto com um amigo, no grupo "Os três do meio". A grande invenção, entretanto, ainda estava a caminho. E vinha sobre rodas.


No Carnaval de 1950, Osmar resolveu aproveitar de outra forma o velho Ford 1929 que usava no transporte de ferro para sua oficina. Adaptou dois auto-falantes nele e saiu à rua na fubica, com os dois amigos, tocando de forma inovadora os tradicionais frevos do Vassourinhas de Pernambuco. Foi um sucesso. Todos queriam ouvir os acordes daquele trio elétrico e acompanhavam a fóbica, ajudada pelos foliões na hora de superar ladeiras mais acentuadas.


Mesmo sem preocupação com patente, desta vez ninguém tiraria de Dodô e Osmar o mérito de inventar aquilo que se tornaria o grande multiplicador do Carnaval da Bahia. Para muitos, simplesmente o maior palco do mundo.


*Do livro "Notícias de uma terra dessemelhante". Saiba mais sobre os 70 anos do trio elétrico clicando AQUI.