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A despedida do poeta

Ou como Damario Dacruz antecipou poeticamente seu derradeiro passeio pelas ruas cidade amada


Diogo Tavares*


Cachoeira, 22 de maio de 2010


O poeta Damario Dacruz ainda não tinha partido oficialmente do nosso convívio, mas o espírito dele já passeava pelas ruas de Cachoeira. Os sensíveis, os puros de coração, os iniciados nas coisas do além talvez tenham testemunhado isso. O povo tratou de espalhar. Os médicos, estes seres quase sempre pragmáticos, atestaram a morte aos dez minutos de um sexta-feira, 21 de maio de 2010. Pobres dos homens que compreendem a fisiologia humana e ignoram os mistérios da alma e da poesia.


Corpo humano. É com esta forma que o grande orador Raimundo Cerqueira gosta de comparar a cidade de Cachoeira. Dos pés, a saída para as estradas do mundo, passando pelo estômago, na feira, e pelo coração, na Igreja da Nossa Senhora da Ajuda, até a cabeça, no outro extremo, tomada pelos terreiros de Candomblé e pelas verdades nas tranças que traçam os destinos dos homens. Explicar esta peculiaridade da anatomia de Cachoeira é importante para compreender porque tinha que ser nessa cidade do Recôncavo, paixão do poeta de Oxóssi, devoto de Cosme e Damião, que a notícia se deu.


Ninguém sabe quem primeiro contou ter visto o poeta, sob forma etérea, tomando café na Panificadora Estrela, caminhando entre as barracas da feira, comprando angélicas e comendo bolinho de maniçoba e mariscos em das Virgens, esperando um filé na pracinha em frente aos Correios, recebendo um grupo em excursão no quarto da filha Damine, transformado numa representação cênica no porão de um navio tumbeiro, ou meditando, rabiscando um poema em sua escrivaninha no andar térreo do Pouso da Palavra. Ninguém disse ter visto com os próprios olhos estas coisas um dia antes do óbito atestado, mas o boato de que o poeta havia partido do próprio corpo alquebrado pelo câncer de pulmão correu toda a cidade na quinta-feira, horas antes da constatação médica.


Mistérios do mundo e da cidade que atraiu o jovem poeta há muitos anos. Nós, pobres homens presos à realidade, levamos muito mais tempo para imaginar Damario pleno em Cachoeira, passeando liberto do corpo alquebrado num leito de hospital em Salvador.

Nos despedimos do amigo na manhã de sábado no Jardim da Saudade, em Salvador, para nos consolarmos pela tarde, velando seu corpo na Câmara de Vereadores na cidade heróica do Recôncavo da Bahia. Depois, não houve carro que tivesse lugar para a imensa saudade. Tomadas as alças por parentes, amigos e admiradores, o caixão com o poeta foi levado em cortejo pelas ruas de Cachoeira.


Da Câmara, a frente do Pouso da Palavra, sonho erguido de um sobrado em ruínas, a esquina da Ladeira da Ajuda, a feira, cada calçada e cada rua estreita da cidade histórica tantas vezes percorrida pelo poeta, segue a passeata silenciosa, cada vez com mais gente, até o cemitério. Homens tolos, acreditamos levar o poeta para um derradeiro passeio. Precisamos ouvir vários relatos para nos convencer que, sim, o poeta pregara uma última pequena troça ao antecipar seu passeio de despedida. Tudo se traduzia na certeza que muitos tinham, ainda na quinta-feira, da passagem do poeta. Precisamos de alguns passos em silencio naquelas ruas para sentir que, assim como fizera antes, o amigo continuava presente, nos instigando com sua perplexidade compartilhada e o mistério infinito das palavras grávidas.


“Avise aos amigos / que preparo o último verso / A vida / dura menos que um poema / e no alvorecer mais próximo / saio de cena”. (Gran Finale - Damario Dacruz)


*Trecho do livro “Notícias de uma terra dessemelhante”.