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A Bahia de Alah

Ou como os negros muçulmanos tentaram o Jihad e um carpinteiro desavisado atravessou na batucada


Diogo Tavares*


Salvador, 24 de janeiro de 1835


A noite mal começara quando o carpinteiro Fabrício esticou o couro sobre a boca redonda do instrumento e atou firmemente as arestas ao aro de madeira. Em seguida, bateu forte, como costumava fazer, para conferir o volume e a intensidade do som produzido. O batuque foi ouvido de forma pouco precisa no fundo de um quintal próximo à oficina do carpinteiro e compreendido como um toque previamente combinado.


Novo batuque foi escutado momentos depois na Rua do Cais do Ouro. Em progressão, novos batuques se seguiram no Pilar, em Água de Meninos, no Julião, no Caminho Novo, na Ladeira do Taboão e no Santo Antônio Além do Carmo. Também seguiram-se batuques semelhantes na Rua das Cabanas, na Rua da Lama e na Ladeira da Praça.


Em poucos minutos, o toque correu toda a cidade e logo grupos de negros armados com estiletes de ferro, chamados de “espigões”, facas e pedaços de pau surgiram correndo pelas ruas, que de mal iluminadas ficavam ainda mais escuras com a destruição dos lampiões a óleo de baleia. Os grupos, que atuavam em cinco áreas distintas da cidade, invadiram casas e saquearam lojas. O objetivo principal era tomar a sede do governo.


Involuntariamente, o carpinteiro Fabrício dera o comando, dois dias antes do previsto, para a Revolta dos Malês, negros muçulmanos trazidos como escravos de vários países da África, principalmente da Nigéria, que pretendiam derrubar o governo através de uma guerra santa e instituir na Bahia a primeira república islâmica do continente americano.


Até então as autoridades não sabiam que dentro de uma capelinha supostamente ligada a uma irmandade católica e em diversos outros lugares da cidade lia-se o Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, rezava-se para Alah e planejava-se o Jihad, levante santo, marcado para o dia de São Gonçalo Amarante. Sob comando do sacerdote-da-lei, cabeça-de-mesa do Conselho dos Nove e limano da Mesquita dos Barris, Luíz Firmino D’Araújo, então com 44 anos, a revolta fora pacientemente e sigilosamente planejada durante vários anos. O objetivo final era levar ao poder a líder religiosa negra Luíza Mahim. No caso de impedimento dela, o cargo seria da bela e ambiciosa Sabina Cruz, escolha que talvez tenha sido fatal para os planos dos revolucionários.


A Rua dos Quinze Mistérios parecia tomada por vendedores ambulantes. Cada um deles, entretanto, era um soldado disposto a matar ou morrer pela causa e armado com “espigões” de ferro. Eles eram comandados pelo “espigão-mor” Felipe Perna Só, que apesar de ter perdido uma das pernas era perito no manejo da arma e contava com obediência incondicional dos seus “vigilantes de assaltos”. Ele era o responsável pela defesa, caso a polícia ameaçasse invadir o templo.


Do lado de dentro da capelinha da Rua dos Quinze Mistérios, após as orações a Alah, planejava-se a guerra santa. Na cabeceira da Mesa dos Nove, com barrete e camesu brancos, tendo uma faixa verde cruzada no peito, sentava-se Luiz Firmino. Os outros membros fixos do Conselho dos Assumanos, todos de branco, eram Luíza Mahim, Sabina Cruz, o tio obá-tundê Francisco Honorato, representante da cidade de Cachoeira, o tio obá-muazim José Luiz da Costa Carvalho, representante de Santo Amaro e outras cidades do Recôncavo, e cinco líderes das regiões da cidade. Estas regiões se dividiam em Centro, Vitória, Conceição da Praia, Pilar e Bonfim, incluindo as áreas próximas. Cabia aos sete líderes das cidades do Recôncavo e de Salvador a tarefa de coordenar novas reuniões secretas com seus seguidores para dividir tarefas e tomar as providências necessárias ao sucesso da revolução. Para garantir sigilo total, a traição tinha como punição a morte.


Esta traição, entretanto, acabou partindo de um integrante do próprio Conselho dos Nove: Sabina Cruz, que era amante de um rico negociante e senhor de engenho português chamado Duarte Mendes. É possível que ela tenha contado segredos por confiar no amante ou para preservar a vida dele, mas é mais provável que ela tenha desejado o lugar de Luíza Mahim ou imaginado o fracasso da revolta e, desta forma, buscasse preservar a própria vida. O fato é que Duarte Mendes procurou o chefe de polícia Francisco Gonçalves e contou o plano dos negros malês.


Uma das explicações para o termo “malê” seria a palavra “imalê”, que significaria "muçulmano". Eles já haviam protagonizado revoltas nos anos de 1720, 1806, 1809, 1814 e 1826, esta última resultando em muitas mortes. A partir daí, entretanto, os malês se incorporaram à vida da cidade e se mostravam muito prestativos e subservientes aos brancos. Muitos eram trabalhadores assalariados, sabiam ler e fazer contas. A irmandade deles parecia ter como único objetivo juntar recursos para financiar a alforria de outros escravos. Os precedentes, entretanto, justificavam a apreensão. Imediatamente, o chefe de polícia ampliou o número de praças nas proximidades do Bonfim, onde a população de malês indicava ser o foco da revolta. Não tinha a menor idéia da dimensão do plano.


Para descobrir detalhes sobre o que os malês planejavam, Francisco Gonçalves mandou prender para interrogatório vários negros de origem muçulmana. Isto contribuiu para que o clima ficasse tenso na cidade e o batuque do carpinteiro fosse entendido como a ordem de ataque. Os líderes, entretanto, ainda não haviam realizado a última reunião antes do ataque e os revolucionários não estavam nas posições. Esta falta de organização, aliada ao fim do efeito surpresa e a falta de armas eficientes pode ter sido determinante. Uma prova disso é que, apesar de possuírem um depósito com ouro e pólvora no Beco da Cerveja, a revolta utilizou praticamente apenas armas brancas.


Ao saber dos primeiros ataques no início naquela noite de 24 de janeiro, o chefe de polícia mandou imediatamente um destacamento para prender Luíza Mahim em sua casa. Ao abrir-se a porta, entretanto, saíram 60 negros armados em fúria que venceram facilmente os policiais e seguiram para tomar o Palácio do Governo. Os conflitos entraram pela madrugada e resultaram em centenas de mortos e feridos. Em Cachoeira, Santo Amaro, São Félix, Muritiba, Maragogipe, Nazaré e outras cidades do Recôncavo os revolucionários queimaram e destruíram casas, engenhos e plantações, principalmente de cana e fumo.


Mais bem armado, o governo conseguiu sufocar a rebelião e tinha os principais líderes mortos, feridos ou presos na manhã do dia seguinte. Aos presos, seria aplicada a pena de morte, depois de sufocados todos os focos da guerrilha. Apesar de ser torturado, o culto malê Albino não traduziu a proclamação da revolta, escrita em árabe. Ele e os outros deveriam morrer enforcados, mas não se achou nem mesmo nas prisões, tendo como pagamento o perdão, quem quisesse fazer o papel de carrasco. A solução, como forma de tornar o fato ainda mais exemplar, foi colocar os condenados a frente das bocas dos canhões do Forte de São Marcelo, cercado pelas águas da baía, e disparar, deixando aos peixes a tarefa de concluir o serviço.


Nos anos seguintes, os malês foram violentamente reprimidos, enquanto o candomblé passou a conviver com o catolicismo através do sincretismo e se tornou a religião dos negros baianos. Hoje, algumas mesquitas em Salvador preservam a religião dos muçulmanos da África. Apesar da repressão, uma lápide no cemitério do Campo Santo atesta que o sacerdote-da-lei Luiz Firmino D’Araújo conseguiu viver até os 116 anos, tendo nascido no dia 12 de abril de 1791 e falecido no dia 17 de março de 1907, e morreu com boa situação financeira e provavelmente fiel a Alá. O filho de Luíza Mahim, Luíz Gama, ficaria conhecido por seus versos e pela luta abolicionista. E a vida prosseguiu na Bahia, terra do Senhor do Bonfim, de Oxalá e, porque não, de Alah.


*Do livro "Notícias de uma terra dessemelhante".

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